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Clarice Lispector: um caminho de volta ao sentir

Comecei a ler Clarice Lispector em momentos distintos da minha vida. Lembro que na primeira vez que li um dos seus livros, fiquei confusa e não compreendi muito bem a leitura.

Recentemente, reli Perto do Coração Selvagem. Foi como se estivesse lendo pela primeira vez. Fiquei maravilhada e sublinhei passagens do livro que vez por outra, quero retornar. Escolhi recomeçar a ler Clarice por Perto do Coração Selvagem, porque o título do livro sempre chamou minha atenção, porém, agora, nunca fez tanto sentido. O título sempre me passou a sensação de liberdade, de romper com paradigmas e expectativas alheias e talvez por isso, eu tenha recomeçado por esse livro. Porque vivo um momento de redescobertas. Vivo em busca de ser autêntica e sincera comigo mesma.


“Sim, ela sentia dentro de si um animal perfeito. Repugnava-lhe deixar um dia esse animal solto. Por medo talvez da falta de estética. Ou o receio de alguma revelação.

Não, não – repetia-se ela -, é preciso não ter medo de criar. No fundo de tudo possivelmente o animal repugnava-lhe porque ainda havia nela o desejo de agradar e de ser amada por alguém poderoso como a tia morta.” (p. 18)


A citação de Clarice me parece que ilustra muito bem o conflito humano de ser o que se é e ao mesmo tempo ter medo da própria autenticidade. Sermos coerentes conosco mesmos, implica em dizermos não para o que aperta e sim para o que nos traz e faz sentido. Isso é tão gestáltico! O que poderia ser mais gestáltico do que bancar a própria autenticidade? A Gestalt – Terapia nos ensina isso o tempo todo.

Clarice Lispector usava as palavras para traduzir as emoções humanas. Escrevia por uma necessidade interna. Em seus livros há um universo feminino de personagens complexas. Ela descreve suas mulheres (Joana, Macabéia...) com riqueza de sentimentos, dúvidas, vivências, situações cotidianas e conflitos domésticos.

Diziam que Clarice era um mistério. Uma mulher sincera, direta. Uma alma inquieta. Ser uma alma inquieta para mim é estar consciente da luz e das sombras. É poder viver a multiplicidade de sentimentos, sejam eles quais forem. Em entrevista dada por Clarice ao jornalista Júlio Lerner na TV Cultura em 1977, Clarice diz que o ser humano adulto é triste e solitário.


“Quis o mar e sentiu os lençóis da cama. O dia prosseguiu e deixou-a atrás, sozinha”. (p 23)


Fazer apologia à tristeza e à solidão, não é aqui o objetivo. Porém, sinto que Clarice nos faz um convite para a realidade da vida. Sim! A vida pode ser muito dura e injusta. Podemos escolher vive-la anestesiados. Podemos escolher viver a vida negando o desconforto e o sofrimento. Podemos escolher viver somente parte do potencial que a vida nos oferece.


Penso no meu trabalho clínico e nos clientes que interrompem seus processos terapêuticos, justamente no momento mais árduo da terapia. Penso também naqueles que não se permitem sentir tristeza, raiva, decepção. Penso nos que se desconcertam quando pergunto: O que você está sentindo agora? Muitas vezes não sabem responder porque estão totalmente desconectados do Sentir.


Clarice escreve também sobre o choque entre expectativas e a realidade crua da vida. Em Felicidade Clandestina há um conto chamado Perdoando Deus. Em um trecho deste conto, Clarice escreve:


“É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele.

...Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza?” (p 44)

Temos a ilusão da felicidade plena. É como se tudo o que fizéssemos na vida, fosse em busca desse estado de plenitude. Porém, a frustração chega quando nos deparamos com o fato de que este estado nunca chegará. A felicidade plena não existe. E que tédio seria a vida se não tivéssemos obstáculos e pedras no caminho. Qual o crescimento possível sem o sentimento de dor, angústia e tristeza? E como parte do mundo e da natureza, somos constituídos por polaridades e contradições.


Clarice nos fala a respeito da satisfação e contentamento nas coisas simples. Aliás, ela dizia que escrevia de forma simples. Escreve a respeito da felicidade em ler um livro muito esperado, por exemplo. “Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo”. O encontro com alguém que nos compreenda, é outro momento de satisfação. “Ela contara-lhe certa vez que em pequena podia brincar uma tarde inteira com uma palavra. Ele pedia-lhe então para inventar novas. Nunca ela o queria tanto como nesses momentos.”


No conto As Águas do Mundo, Clarice escreve sobre a mulher e o mar. “Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.”


Ler Clarice para mim é um alento para a alma. Reconhecer-me nas palavras dela é encontrar lugar. Reler Clarice nos meus 44 anos de vida, é reconhecer a maturidade do meu processo. Ir além e desbravar obras de Clarice que ainda não li, é empolgante. Onde será que reconhecerei a mim mesma no próximo livro de Clarice? Onde será que te reconhecerei nas palavras dela?


Pensar Clarice Lispector na clinica é reafirmar a Gestalt – Terapia como um caminho. Um caminho de volta aos sentimentos, às contradições, aos altos e baixos, à transformação e ao crescimento.




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